08/08/2017

Sessão Poema - Parte LXV [Tudo nesta vida deve ser feito com tesão...]


Arte: Jean François Painchaud


Eu não acumulo nada.

Nem dinheiro;

Nem sapatos, roupas, bijuterias, maquiagens.

Muito menos raiva e rancor.

Às vezes me desfaço até livros...
                      meus nobres amores.

Quem dirá de relações que me desbotam.

Não só me desfaço;

Limpo o espaço.

Para singularidade vim.

Amores?!

Também não acumulo.

Que venham e tragam tudo.

Beijos;

Abraços;

Confidências;

Choros;

Excitação.;

Membros duros, pernas trêmulas.

E o molhar...

O (ser) molhado de paixão.

Tudo nesta vida deve ser feito com tesão...

Nessa e nas outras...
                            caso exista.

Tudo é êxtase;

Tudo é voraz;

É tudo amor, meu bem.

Tais Medeiros.



27/07/2017

Sessão Poema - Parte LXIV [Eu sou o paradoxo.]

Arte: Apollonia Saintclair

Eu ando devorando livros;
Devorando cigarros;
Devorando destilados;
Devorando solidão.
Em contrapartida
A vida me devora.
Lentamente, mas ferozmente.
Não me concede perdão.
Inalo cigarros e escuridão.
E nada parece ter sentido.
Ando sem matilha
Um cão doente, esquecida.
No fundo de uma selva rasa.
Entretanto.
Ainda consigo sentir os cheiros.
Não perdi o instinto de caça.
E não me tornei uma.
Será difícil me achar.
Me reconhece entre a neblina.
Eu não morri...
Ainda respiro.
Vagarosamente.
Um pouco de tudo...
                   sem se importar com nada.

Não paro...
Dou um tempo até as feridas do último combate secarem.
Não espero que curem, não espero que cicatrizem.
Quero apenas que elas possam aguentar.
Mais pancadas...
Mais mordidas;
Mais pau e pedra;
Me apropriei da solidão.
Agora não espero.
Qualquer hora é hora.
O momento não será anunciado.
Pois não será o retorno do salvador.
Será eu.
Voltando do inferno
Ardente...
Em brasa.
Para transformar homens em pedras.
Afogar mulheres entre minhas pernas.
Enterrar no útero todos aqueles que sofrem.
Meus seios calaram as bocas daqueles que ousaram me renegar...
                                                                                sufocando-os. 

Uma diaba;
Um cão;
A Loba.
Em pelo e carne.
Abrindo o purgatório.
E quando retornar.
Não terá um corpo que não arda.
Que eu não entre.
Para amar ou destruir.
Não terá uma bebida que amenize.
Eu trago verdades.
Eu sou o paradoxo.
É dentro de mim...
Que reside o inferno e o paraíso.

Tais Medeiros.

26/07/2017

Ela até gostava dele, mas gostava mais de bar, café, coragem e poesia. [TEXTICULO 74]

Ela até gostava dele, mas gostava mais de bar, café, coragem e poesia. Ele até fazia um belo café, podia dissertar horas e horas sobre literatura e filosofia, conhecia bares como ninguém. Porém, ele oferece só para os outros o melhor de si. Para ela só resta o olhar gélido da desconfiança, seus pensamentos fora do que representa ser. Relutava vê-la como igual ao mesmo nível de criação e vida. No escuro do quarto a elogiava por sua voluptuosidade, sua inteligência e imaginação, ao amanhecer um beijo seco e pelas ruas indiferença. Ele não a admirava quando ela brilhava nas noites perambulando ao seu lado nas sarjetas, entre prostituas, viciados, ladrões, traficantes, trabalhadores, todos a notavam e a elogiavam pela mente poética, pela simpatia e reflexões acolhedoras. Tudo que ele via no escuro e negava na claridade. Ela diz: Ele teme amar uma mulher forte, livre. Ele se defende, diz não ser bem assim. Alega que admira, não deseja castra-la ou competir, apenas sente medo não de amar, mas de não ser amado. Entrega-se a esse turbilhão feminino e nada restar após da tempestade que ela significa. Por isso se afoga em wihisky e cigarros baratos. Ele tem consciência do papel que ocupa na vida dela, mas por traumas que ele insiste em alimentar não se arrisca, é sempre o medo... Ele não percebe que a única coisa que difere as duas almas perturbadas e incandescentes é esse medo de ousar, tentar, de viver, devorar tudo até as entranhas, sem medo de perder sem culpa de ganhar. Ele teme a exposição de seus defeitos e fraquezas, teme reconhecer que é também responsável por seus dissabores. Não quer vestir a simples carcaça de ser humano. Deseja ser o rei do desapego, ninguém o submete ao ridículo. Pobre rapaz. Racionaliza sobre tudo, quando o amor é apenas uma doce loucura. Ela estava pronta para enlouquecer ao seu lado, construir história. Não trazia nada nas malas que chama de corpo, nem passado, nem presente, nem futuro. Ela ousava recomeçar do zero, renascer em terras desconhecidas, esquecida de tudo que já aprendeu para aprender mais, viver mais. Ela sabe que seu tempo é sempre o agora, não existe outras épocas, outros amores, outras dores. Não descasca feridas, não abre cicatrizes seus demônios a muito tempo foram exorcizados, ela apenas quer correntes de água quentes para amar suas carcaças até quando der, quando puder. Mas foi o medo, o maldito medo que enfraquece o ser, as melhores coisas foram postas depois do medo é preciso vence-lo, desafia-lo para poder receber o pote de ouro no fim do arco íris. Ela até queria ama-lo incessantemente, contudo ela não ama homens fracos.

Tais Medeiros

Dei um beijo na boca do medo e saí por aí
Pela noite tão longa
Passei por terreiros iluminados, na rodoviária
Meu mundo caiu
Peguei na mala uma meia
Vai fazer frio, vai fazer frio
Só me interessam correntes de ar quente
E o que sente um golfinho
Nas grandes rotas do mar
Eu não tenho casa, eu não tenho grana
Vai fazer frio, vai fazer frio

22/07/2017

Sessão Poema - Parte LXIII [“Um sonho de Pierrot e um beijo de Arlequim. ”]

Arte: Nudegrafia


Fomos carne.
Nos despedaçamos obstinadamente.
Nos consumimos até os ossos.
Desejos de útero latente.
Paixão que se mata na cama.
Rasgando lençóis.
Sentimentos vividos na pele.
Satisfaz o corpo.
Um deleite...
Um desfrute...
Um instante.
Ainda me excito só de lembrar.
Mas sua loucura foi mentira.
Sobressaiu a minha.
E você não suporta.
Não sou pedaço, meu bem.
Eu sou inteira.
E você não corre em minhas veias.
Mas habita meu corpo.
Como um Arlequim..
Que ama em noites de carnaval.

                    ***

E o que sinto por ele é calma.
Uma paixão sem marcas.
Que ganha vida em conversas descompromissadas.
Nos silêncios criativos.
No olhar dormindo.
Não almeja me escravizar na dor.
Ama-me...
Do corpo a loucura.
Não teme meus desencantos.
Meus defeitos, desesperos.
Meus risos altos e frouxos.
Os convites promíscuos.
Bebedeiras e torpor.
Me vê menina...
Chame-me de anjo.
Mesmo quando ardo no inferno do seu corpo.
E é sempre olho no olho.
E até na distância se faz presente.
Ele é a calmaria diante do tormento do meu ser.
O repouso da minha mente.
Meu Pierrot
E eu?
Sou Colombina.
Ardente...
Inflamada de amor e tesão.
Desejando avidamente.
“Um sonho de Pierrot e um beijo de Arlequim. ”

Tais Medeiros.

21/07/2017

Sessão Poema - Parte LXII [Energias místicas, cristais piramidais.]



Vendo luz.

Para alimentar nossa natureza.

Inflamar o âmago.

Fortalecer o que nos constitui.

Energias místicas, a força dos cristais.

Atraindo o bem, bloqueando males.

E nosso corpo.

Templo dos gozos, das dores, sabores.

Pirâmide.

Reserva na base energia.

Íntima...

Combustível para continuar.

Emano luz.

Para acender novas veredas

Há tempos escondida na neblina.

A escuridão não dá mais abrigo;

As sarjetas já não saciam mais.

Eu doo luz.

Um instante de sanidade cósmica.

Que nasce e se põe junto ao Sol.

Fertilizando sonhos.

Cultivando vida.

Mudanças que nos alimentam.

Transforma.

Amores que nos aceitam.

Seguindo o rio de Sidarta.

Onde as águas nunca são as mesmas.

Um obstáculo a ser vencido.

Talvez traga algo a ser aprendido.

Tudo flui, tudo se renova.

Energias místicas, cristais piramidais.



Tais Medeiros.